terça-feira, 26 de janeiro de 2016

[Escrita] O pesadelo da segunda versão

Escrever uma história ficcional é um trabalho fascinante, mas também exaustivo. Estruturar uma trama e então colocá-la em palavras, tantas quantas forem necessárias, é um ato que exige mais do que gosto por ficção. Exige disciplina e perseverança, ainda mais se estivermos falando de uma trama longa, como um romance.

Porém, depois de dois ou três meses de trabalho duro e quase diário, quando você enfim tem todo seu manuscrito nas mãos e o deixa descansar por mais alguns meses você resolve retomá-lo. Eis o glorioso momento de apenas rever alguns errinhos bobos de digitação para então ter sua obra-prima pronta para ler levada às editoras, é o que você pensa.

Mas então você descobre que aquele manuscrito está horrível.

Pior do que horrível, está vergonhoso. Os personagens parecem saídos do nada e alguns estão tão rasos e sem participação que ninguém notaria a diferença entre eles e uma torradeira. E de onde saíram tantas subtramas que não levam a lugar nenhum? Muito mais crítico do que isso é ver que sua linha principal de história também está errada, com buracos e descontinuidades. Em alguns momentos você parece ler o roteiro de uma peça escolar, onde os personagens decidem ir pela direita porque a professora mandou, não porque há um universo a ser salvo.

E é assim que você descobre uma verdade cruel: terá que reescrever. Não, você terá que praticamente fazer tudo do zero outra vez, se quiser que aquele monte de palavras sem o menor valor se transforme em algo parecido com uma boa história.

Infelizmente isso é bastante comum e natural. Um enredo não nasce pronto e também não se apronta sozinho enquanto se faz um primeiro rascunho. Muitos acabam travando na hora de colocar as primeiras palavras para fora justamente por medo desses enganos de uma primeira versão. Porém, o fato é que é quase certo de que se vai cometer esses erros, em grande ou pequena escala, da primeira vez.

Personagens desnecessários, antagonistas forçados, motivações descabidas. . . Esses são apenas alguns dos problemas que uma primeira versão pode ter e são um pesadelo que assombra o autor antes mesmo da primeira frase. Mas, mesmo dentro dessa roda de pavor criativo, existe um consolo simples para tal aflição:

É importante que tudo saia errado na primeira versão.

Ninguém é capaz de enxergar todos os defeitos de uma ideia abstrata, recém-criada, antes de colocá-la em palavras concretas. Tendo um texto feito e podendo analisá-lo com olhos de um expectador, fica muito mais fácil para o escritor compreender onde ele precisa fazer modificações. Ou mesmo o que ele tem que cortar fora por completo na segunda versão.

Talvez você tenha personagens demais. Talvez falte uma atuação mais convincente do antagonista ou mesmo do protagonista. Talvez você tenha criado complicações excessivas para impedir que seus personagens chegassem logo no momento onde as coisas ficam complicadas e, naturalmente, sua primeira metade de enredo ficou arrastada e tediosa. 

Ninguém vai enxergar isso antes de escrever a primeira vez. E, em especial, ninguém poderá fazer uma versão muito mais amadurecida de história sem ter aquele calhamaço de baboseira primeiro.

Então, depois de recuperar-se do trauma de ter escrito algo que não pagaria cinto centavos para ler, e você compreende tudo isso que falei, chega o momento de recomeçar.

É a hora da segunda versão.

Talvez você possa aproveitar vários trechos, ou sequências inteiras de ação e diálogo. Será muito sorte se assim for, mas não se prenda a isso. Pode acontecer de você descobrir que, não mais do que despropositadamente, você estava escrevendo um livro completamente diferente do que achava que estava. Nesse caso, recomeçar vai ser de fato, praticamente do zero.

Não desanime. Essa é apenas mais uma das etapas desse trabalho. Esse fascinante e exaustivo ofício que é escrever ficção. Ninguém lhe pediu para fazê-lo e ninguém ficará mais satisfeito quando terminar do que você mesmo. 

Então, siga em frente.


[Notícia] UQ Holder será lançado no Brasil pela Editora JBC

Há algum tempo já se vinha especulando e foi confirmado no Henshi+ #63 publicado no canal da Editora JBC no Youtube: UQ Holder será lançado no Brasil. 

(NOTA: Apesar de já fazer duas semanas dessa notícia, devido ao aumento das buscas pelo texto sobre  UQ Holder já publicado aqui no blog, penso ainda ser válida esta publicação.)

A informação é de que o contrato recém foi assinado, então a JBC ainda não tem maiores informações sobre formato, papel, preço ou periodicidade. Por alto eles comentaram que gostariam de lançar o primeiro volume da série ainda no primeiro semestre deste ano de 2016.




UQ Holder é a obra atual de Ken Akamatsu e se passa no universo ficcional que foi criado em Negima!, sua obra anterior. Ainda que seja um enredo independente, UQ Holder depende muito da obra predecessora para que seus gags e referências sejam em todo compreendidas.

Para os fãs do estilo battle-shounen adotado por Akamatsu na segunda metade de Negima, UQ Holder é indicação certa. Porém, ficará desapontado quem esperar ver algo mais na linha de trabalho mais antiga do autor. Apesar dos elementos de comédia e toques de harém, UQ Holder se distancia e muito dessa linha dramática.

Conforme a Editora JBC liberar mais informações, traremos elas ao blog.

sábado, 7 de novembro de 2015

Pinball - uma moda antiga, mas que ainda pode encantar

Olá a todos!

Pinball, sim, é esse o tema dessa postagem. Sempre tive um carinho por essas máquinas, apesar de praticamente nunca ter jogado em alguma antes de vir morar em Porto Alegre. Por aqui o único lugar que conheço com essas máquinas (exatamente quatro delas) é o fliperama do Barra Shopping Sul e, sempre que possível eu dava uma conferida nas mesmas.





Infelizmente é visível a falta de cuidado com as máquinas do lugar. Algumas vivem dando problema e eles não parecem pensar em algum dia renovar sua coleção. Um verdadeiro pesar, visto que as máquinas disponíveis não tem toda a qualidade das fabricadas pelas empresas de maior tradição do ramo.

Porém, esse carinho por essa forma de jogo que mistura mecanismos analógicos e digitais que foi febre, especialmente nos Estados Unidos, se deu quando descobri que existe uma maneira legítima de jogar as máquinas mais lendárias do Pinball, através de coletâneas lançadas para as mais diversas plataformas de video-game desde a geração do Playstation 2 e até o atual Pinball Arcade, que tem versões para computador e dispositivos móveis.

A responsável por essas coleções e adaptações é sempre a mesma empresa, a FarSight, e ela faz um trabalho primoroso em trazer, em diversas plataformas, as máquinas de quatro empresas famosas do ramo do pinball: Williams, Bally, Stern Pinball e Gottlieb



As versões para consoles vem com pacotes de mesas, alguns por empresa ou por época de lançamento original das mesas, e a versão de computador/android tem a disposição mesas de todas as épocas e das quatro empresas que ela representa. Claro que não é possível jogar todas as mesas à vontade sem pagar, mas, além de o aplicativo vir com uma mesa inteiramente gratuita, de altíssima qualidade, ainda existe (na versão android pelo menos) um rodízio mensal de mesa gratuita extra.

As imagens falam por si da qualidade do game.




E, para os curiosos, também existem diversos vídeos no  Youtube demonstrando na vida real como são as mesas.



Pinball é um tipo de jogo para um público limitado, mas que ainda tem seus vários adeptos mundo à fora e, de maneira bastante inteligente, as empresas conseguem afastar um pouco dos prejuízos da falta de público mais ativo com a disseminação das suas produções de maneira digital. Isso dá uma sobrevida incrível a este mercado que poderia parecer morto diante da concorrência dos jogos puramente eletrônicos.

Diferente do que se pode pensar olhando a um primeiro momento, uma máquina de pinball não é apenas um "bate-bate na bolinha pra não cair". Toda a mesa é única, e possui diversas formas de pontuar e de fazer combos que levam o jogador a experimentar modos ainda mais avançados de gameplay.

Pessoalmente é uma alegria imensa para mim poder descobrir clássicos como Fun House e Taxi estando em plena segunda década do século 21 e desejar conhecer ainda muito mais. Sei por alto que ainda existem exposições de novas produções nos EUA e por lá o carinho por esses jogos é maior. Isso me dá um tanto de esperanças de que talvez ainda veja pessoalmente alguns antigos e novos clássicos desse ramo de entretenimento.

Enfim, só queria dividir com vocês, leitores do blog, um dos hobbies que tenho. Pretendo ainda falar de outro desses hobbies, mas, cada coisa no seu tempo!

Por hoje, era isso.

Fontes: Site oficial do The Pinball Arcade

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Está chegando o NaNoWriMo 2015

Olá a todos!

Hoje a chamada é rápida, apenas para apresentar e/ou relembrar os escritores de plantão sobre o NaNoWriMo 2015, que está em vias de ter início.

O Nanowrimo tem uma ideia simples: escreva um rascunho de livro com pelo menos 50 mil palavras no período de trinta dias (de 1 à 30 de novembro) e seja um vencedor do desafio que é escrever um romance. Não existe premiação física, mas cada autor que chega até o final desse desafio tem consigo um precioso rascunho que, algumas vezes, pode estar esperando há anos para ganhar forma.

Claro que ninguém escreve um romance no seu formato final em trinta dias e nem é essa a ideia do Nano. A pressão do tempo é para funcionar como uma válvula para o escritor ser capaz de suplantar aquele seu instinto de perfeccionismo literário e deixar soltar a parte da criatividade e improvisação.


Falando de experiência pessoal: Este será meu quarto ano de participação e será minha segunda tentativa para escrever o mesmo livro. No primeiro ano fui fracassada logo nos primeiros dez dias do desafio e desisti, então essa será minha tentativa de redenção com o primeiro livro de um cenário de fantasia. Sinceramente, sou totalmente adepta do pensamento do Nanowrimo e pretendo ainda alcançar o status de "cada mês é um nanowrimo" para viabilizar vários projetos.

Existem várias pessoas que criticam o modelo do Nanowrimo ou são contra a ideia de escrever um rascunho de livro dentro de um tempo determinado. Claro que o modo do produção de cada um é algo particular, mas tenho minhas ressalvas em um caso em particular: os inexperientes.

Já vi vários desses críticos serem pessoas que nunca sequer concluíram um rascunho de livro e ainda tem aquele pensamento romântico de que vão concluir um primeiro texto e isso vai ser editado, publicado e virar sucesso e ele será até entrevistado no Nerdcast. (Exemplo bem exagerado. . .)

Acontece que não é assim que a literatura e o mercado literário funciona, em sua maioria. São pouquíssimos os casos de pessoas que vão trabalhar em um texto do começo ao fim de uma só vez, seja no tempo que for, e apenas isto para depois publicar. Textos podem precisar de tempo para amadurecer, talvez você faça um rascunho ruim hoje e, daqui a alguns anos vá retomá-lo e então ele será um bom romance.

O Nanowrimo é a oportunidade de fazer esse primeiro rascunho ruim, mas necessário para posteriormente se ter uma obra. Também é uma maneira incrível de criar disciplina diária para a escrita, algo que faz toda a diferença em termos de produtividade.

Cada um sabe o que é melhor pra si, mas não é preciso chegar ao ponto de criticar quem é à favor de um evento divertido e que ainda pode trazer alguns benefícios, ok?




ENFIM, fica aí o convite a todos para que tentem tirar de si aquela história que espera há vários anos, ou talvez algo que pensou recentemente, mas sabe que poderia ser incrível se colocado em um livro.

Está chegando a hora da entrega literária!

links:

Matta ne!


quarta-feira, 30 de setembro de 2015

[Perfil] Itoshiki Nozomu - o senhor do desespero

Dentro da ficção é comum que os personagens possam ser rotulados pela sua principal característica, seja física ou emocional. Protagonistas costumam ser corajosos, às vezes inconsequentes, alguns ainda atrapalhados ou mesmo meio lerdos. Porém, são poucos os heróis que podem ser qualificados com a mesma emoção que nos vem à mente ao falar de Itoshiki Nozomu, o personagem central da série Sayonara Zetsubou Sensei:

Desespero.

Neste artigo vamos destrinchar os aspectos obscuros e nada saudáveis da caracterização deste marcante personagem que, junto a um elenco inesquecível, conseguiu transformar uma história de nonsense e terror em uma série de grande sucesso em várias mídias.

Histórico




Nascido em uma família abastada, Itoshiki Nozomu é o terceiro filho de um senhor de imenso poder em uma província (não nomeada na série) do interior do Japão. O peso da tradição de sua família fica bastante evidente na sua maneira de se vestir e em seus pensamentos que muitas vezes parecem retrógrados.

Apesar de ser apresentado como um jovem homem que tem certa fixação na morte, em certo ponto da trama somos apresentados para um possível passado de Nozomu, no início do seu Ensino Médio, quando ele era um rapaz feliz e cheio de esperanças para o futuro. Sua vida foi mudada radicalmente graças ao seu encontro com um grupo peculiar de rapazes que adotavam o pessimismo absoluto como forma de encarar a vida.

Fora essa, existem ainda algumas informações sobre as relações familiares dos Itoshiki, além de uma trama própria apenas para apresentar o "Ritual de Casamento Tradicional da Família Itoshiki" (que consistem em: se duas pessoas se encararem durante o período de doze horas desse ritual, as pessoas estão automaticamente casadas). Mas pouco se comenta sobre a relação do rapaz com os pais ou irmãos, sendo uma das poucas pistas é dada no capítulo referente aos segredos que não se contam aos pais, representados pelo nascimento do dente do siso. Neste capítulo percebe-se que há um distanciamento de Nozomu com o pai, mas que o mesmo é agravado por atitudes de outras pessoas, como o mordomo Tokita e a irmã caçula de Nozomu, Rin.

A vida de Nozomu, depois de tornar-se um homem desesperado teve seu ápice quando, sendo contratado pela escola local (que vive mudando de nome) e se torna professor da turma A-1. Uma classe que reúne toda a sorte de pessoas estranhas e problemáticas, algo que não poderia ser pior para um professor com dificuldades de lidar com seus próprios complexos.

Desespero! Estou desesperado!




A vida é algo sem sentido para Nozomu. Ele não busca amor, ou sucesso profissional. Seus dias se resumem a uma eterna lamentação enquanto ele caminha de lá para cá em seu cotidiano. Suas relações sociais, fora da escola, são inexistentes. Ele faz vários relatos de situações onde esteve em completo isolamento ou a beira de um final trágico para sua vida. Ainda assim, algo o separada da sua motivação de morrer. Esse fato pode ser resumido na frase que ele, sabiamente, exclama sempre que sua vida é colocada em perigo real quando ele não está esperando:

"E se eu tivesse morrido?!"

Fuura Kafuka, mocinha da trama é rápida em compreender que Nozomu, apesar de toda a negatividade, o Professor Desespero não é capaz de abrir mão do seu maior bem, que é a vida. Uma contradição evidente que demonstra a falta de franqueza com que o professor encara seus próprios sentimentos.

E é exatamente nesse conflito de valores que o desespero e a falta de reação diante da vida se tornam marcas pesadas de toda a personalidade do professor.

As "esposas" de Nozomu




Sendo o centro de uma classe povoada em sua maioria por garotas adolescentes, é mais do que natural que muitas delas o vejam como o seu modelo de homem ideal (por mais distorcido que isso possa parecer, se refletirmos sobre quem estamos falando). Ainda assim podemos destacar um grupo central de personagens com as quais Nozomu tem um contato mais frequente e que são também peças-chaves para a compreensão do enredo absurdo da série.

Fuura Kafuka (da qual falaremos em maior detalhe na seção que contém spoilers, demarcada visualmente no tópico à seguir), a garota super-positiva é a perfeita antítese da concepção de Nozomu. A interação dos dois é um dos pilares do começo da série, gerando uma série de situações cômicas e, até certo ponto, perturbadoras. Com o passar do tempo e o desenvolvimento de outras personagens também marcantes, Kafuka perde bastante do seu espaço, mas continua sendo um dos pontos de base para todo o desenrolar da trama.

Com Kitsu Chiri, a super-certinha, a relação de Nozomu é igualmente conturbada, mas em um sentido muito mais perigoso. Chiri é extrema para lidar com as coisas e não poupa esforços, ou se importa com o bem e mal, para que as coisas fiquem todas "adequadas aos padrões". Uma das personagens mais freak do elenco é também uma das que mais gera situações angustiantes ou mesmo fatais à Nozomu.

Tsunetsuki Matoi é a stalker da série. Completamente apaixonada por Nozomu é quem mais está presente em cena, pois está SEMPRE junto ao seu amado professor. Apesar de incomodado à início, rapidamente Nozomu simplesmente aceita e lida com naturalidade àquela invasão constante da sua vida e privacidade. Aliás, a capacidade de adaptação ao absurdo pode ser colocada também como uma das grandes "qualidades" do personagem.

Apesar de sempre tentar lidar com suas alunas problemáticas da maneira como um professor faria, Itoshiki Nozomu acaba sempre carregado para as reflexões e ações descabidas de suas estudantes. Uma relação que mantém o teor cômico da série constante, mas que também consegue adquirir tons dos mais obscuros, principalmente quando nos aproximamos do derradeiro final de SZS.

As sombras nos cantos da sala




Sayonara Zetsubou Sensei é um mangá que ludibria bastante o seu leitor durante seu desenrolar. Volta e meia somos presenteados com takes e sequências que parecem completamente fora da realidade e que em nada se combinam com o que as precede ou sucede. A intenção de causar confusão e certa agonia é levada à sério pelo autor, Kumeta Koji, e isso se aplica a todos os seus personagens, com a inclusão honrosa de Itoshiki Nozomu.

Atenção, neste ponto vamos dar SPOILERS MASSIVOS do final de Zetsubou Sensei, se você não leu ou não conhece os fatos, sugiro que pule toda essa parte do texto a seguir, demarcada com coloração diferenciada e com um alerta visual do término.

*SPOILERS*
Adentrando um pouco nas teorias mais sombrias sobre essa série, possíveis em grande parte graças às revelações aterradoras do último volume de SZS, temos o fato de que Nozomu na verdade é uma alma partida, graças à perda precoce da jovem que ele julgou que seria o amor de sua vida. E, sim, estamos falando de Fuura Kafuka, ou melhor, ??? Ai, jovem super-positiva e feliz pela qual o jovem Nozomu fora apaixonado e da qual se separou forçadamente graças a um acidente de trânsito.

Tomado pelo desespero dessa perda, que também afetou a sanidade do rapaz, Itoshiki foi então introduzido em uma encenação que se tornou sua vida real: a escola, suas alunas e a existência de uma jovem chamada Fuura Kafuka, que na verdade nunca existiu além da imaginação perturbada de todos os envolvidos no caso. Um ambiente moldado para deixar mentes conturbadas unidas em um único lugar, sem mais causar mais à si ou à sociedade.

Sem entrar nos detalhes de como a "possessão" do espírito de Ai aconteceu nas ditas estudantes (que na verdade eram outras pessoas profundamente perturbadas, unidas naquele experimento de realidade surreal), podemos perceber que toda a irrealidade presente nas passagens bizarras de Sayonara Zetsubou Sensei nada mais são do que os delírios, cada vez mais absurdos, da mente já tão distorcida do jovem Nozomu. Um fato que, junto aos outros pontos dessa revelação grotesca de enredo, é capaz de despertar um profundo sentimento de desespero real no leitor quando se chega ao final fatídico, e igualmente insano, da série.

*FIM DOS SPOILERS*

Conclusão

Desesperado, frustrado e incompreendido. Itoshiki Nozomu é uma figura complexa que consegue ser retratadas das formas mais tragi-cômicas e caricatas dentro da série Sayonara Zetsubou Sensei. É uma figura de fácil reconhecimento visual e que tem um vocabulário próprio, cheio de personalidade. Um personagem de valor e que trás muita qualidade para a veia dos mangás voltados para as comédias trágicas.

A ironia dos pensamentos de Nozomu são capazes de despertar os mais diferentes tipos de reflexão no leitor/expectador, basta que se esteja minimamente atento para o que realmente ele e sua trupe de alunas loucas estão de fato mostrando diante de nossos olhos. E ainda que suas críticas à sociedade japonesa (e, em parte, à toda a humanidade) sejam feita em tom de exagero ou sarcasmo autoral, muito do que Itoshiki Nozomu diz é de fato correto, em termos factuais. Seja falando da sociedade "viciada em números", da necessidade de "viver de acordo com seus limites" (e quebrar esses limites), ou seja expondo a hipocrisia da sociedade nipônica quanto à aspectos relevantes como a imigração ilegal e pedofilia.

Tanta força também se torna um peso negativo para o autor, que acaba ficando eternamente vinculado à imagem do seu grande protagonista. Isso tanto é verdade que, até então, o trabalho subsequente de Kumeta Koji, Sekkachi Hakushaku to Jikan Dorobou, não conseguiu alcançar o estrelado merecido, em parte pela sombra imensa que Itoshiki Nozomu deixou para seu novo protagonista.

De todo modo, não há como ignorar toda a excelência de Kumeta para criar um grande personagem, de características quase integralmente negativas e mesmo assim capaz de deixar sua marca na massa de aficionados por sua obra-prima.

Grande feito de Kumeta. Feito ainda maior do desesperado Nozomu.


Fontes:
Volumes 1 e 2 da edição japonesa de Sayonara Zetsubou Sensei (acervo pessoal)
Animações Sayonara Zetsubou Sensei (2007), Zoku Sayonara Zetsubou Sensei (2008), Goku Sayonara Zetsubou Sensei (2008/2009) e Zan Sayonara Zetsubou Sensei (2009) - todas pelo estúdio  SHAFT.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Comentários sobre Planetes v.1

Olá a todos!

Esse ano de 2015 tem sido muito bom para leitores de mangá que também são leitores de ficção-científica. Grandes anúncios como Akira e o relançamento de Eden (ambos pela Editora JBC) são alguns dos principais nomes desse momentos, mas outros títulos de peso também chegaram às bancas. Esse é o caso de Planetes, mangá de Mokoto Yukimura, autor também de Vinland Saga (ambos publicados pelo selo Planet Mangá, da Panini).

Comentários sobre a trama



Em um futuro próximo, onde o desenvolvimento da exploração espacial já torna possível a construção de estações e bases em alguns pontos do Sitema Solar, em Planetes acompanhamos a vida de Hoshino Hachirota (ou "Hachimaki", como lhe chamam), um jovem astronauta que tem uma das funções de menor glória: lixeiro espacial. Um trabalho exigente e necessário, mas que não é dos mais gratos.

Temos, além de  outros dois tripulantes na nave Toy Box: Yuri Mihairokov, um russo que tem um motivo bastante distinto. Além deles temos a piloto da nave, Fee Carmichael, uma mulher de muita personalidade e certo nível de irritabilidade constante pela dificuldade de manter seu vício no cigarro enquanto trabalha no espaço.



Tendo falado do plot e dos principais personagens gostaria de dar certo destaque à maneira toda própria com que o enredo é desenvolvido. Os dois primeiro capítulos são fechados em si, sendo o primeiro focado em Yuri e suas motivações que vem de um passado trágico. Depois temos Hachimaki, que passa por um tratamento na Lua e conhece uma jovem bastante peculiar. Uma pessoa que consegue marcar o astronauta e passar-lhe, através de seus atos, valores profundos para sua própria vida.

Depois desses capítulos iniciais a trama começa a desenvolver-se de maneira mais linear. Isso não tira dos capítulos os seus enredos próprios e auto-contidos, porém a cadência entre esses acontecimentos é bem mais proeminente na trama como um todo.

O principal ponto de Planetes é a relação entre a vida do espaço e os seres humanos, criaturas que não nasceram naturalmente para este tipo de ambiente. Os anseios dos astronautas em conflito com suas limitações e todos os riscos tão reais de aventurar-se no cosmos, mesmo para as coisas que pareceriam mais rotineiras. É nesses pontos que a trama brilha de maneira única.

Falar da arte nem parece necessário quando se tem um estilo tão sólido e bonito de traçado como é o de Yukimura. Os personagens são todos muito bem distintos, com traços visuais próprios e que falam muito sobre suas personalidades. Os desenhos de equipamentos espaciais são muito precisos, o que deixa clara a utlização de referências diversificadas e de aparatos reais da atualidade. Sendo uma ficção-científica hard este aspecto é um dos que mais dá credibilidade e dá ao leitor o convencimento necessário nas situações ali apresentadas de maneira.


Pessoalmente. . .

Planetes é um dos títulos que valem mais à pena seres adquiridos. O material está bem tratado graficamente, com um acabamento robusto, que se valoriza ainda mais pelas artes de capa e estilo gráfico adotado. Dentro, as páginas coloridas são de ótima qualidade, valorizando a maneira pessoal do autor utilizar as cores.

Se já não bastasse essas qualidade provenientes da edição nacional, existe a qualidade incrível da concepção e trama de Planetes. Personagens de personalidades distintas e tangíveis, com características que se mostram com facilidade. Desde o protagonista, até Nono, mesmo aparecendo em um único capítulo.


Concluindo

Planetes vale muito a pena como compra, pela qualidade, preço e excelência do enredo, e também como leitura (se você já está com o orçamento de quadrinhos comprometido, mas tem um amigo que está colecionando a série). Por ser curta, e levando em conta os rumos já mostrados no final deste primeiro volume, é bastante seguro dizer que Planetes será uma leitura marcante do início ao fim.

Por hoje era isso.
Matta ne.


sábado, 5 de setembro de 2015

Comentários sobre Zero Eterno volume 1

Olá a todos!

Apesar da crise financeira estar apertando nossos bolsos trabalhadores, ainda é possível comprar alguns mangás que não se conhece para ter alguma surpresa. Foi com esse espírito de certa cautela que adquiri o primeiro volume de Zero Eterno (história de Naoki Hyakuta e arte de Souichi Sumoto), publicado no país pela JBC. Uma escolha nem tão arriscada assim, afinal adoro histórias à respeito da Segunda Guerra Mundial pelo ponto de vista dos japoneses.

Comentários sobre Zero Eterno - volume 1



Baseado em um romance de mesmo nome, Zero Eterno (Eien no Zero, no original) é uma ficção que conta a jornada de Kentaro Saeki, um jovem homem sem rumo na vida que, através da curiosidade de sua irmã pelo passado do avô biológico deles, Kyuzo Miyabe, um aviador e Kamikaze que lutou na Guerra do Pacífico.

A guerra narrada pelos que sobreviveram. É assim que vamos desvendando a figura de Miyabe junto com seus netos. Um dos primeiros pontos que chama a atenção na construção dessa figura é quando os dois irmãos, enquanto conversam sobre o assunto em uma lanchonete, chegam ao seguinte questionamento:

Nosso avô era um terrorista?

Muitas vezes não paramos para refletir sobre os diferentes pontos de vista que as pessoas tem dos mesmos fatos. Kyuzo Miyabe foi um kamikaze, uma pessoa que jogava sua vida fora para causar o máximo de destruição aos seus alvos. Se compararmos com os radicais do oriente médio de hoje em dia, fica bastante óbvio para nós que os kamikaze poderiam ser considerados sim terroristas. Porém, não era assim que os japoneses viam as coisas na época da guerra. Todos os que morreram de fato daquela maneira sentiram-se cumprindo seu dever para com o Grande Império Japonês e também para com a divindade do Imperador. Para eles aquela forma de morrer era extremamente grata para um aviador. Uma honra.

Um dos pontos de maior destaque no enredo neste primeiro volume é a maneira como ele consegue deixar em profunda evidência a diferença de valores entre o período de guerra e o período de paz. Aliás, essa parece ser uma constante em toda a obra.

Miyabe é relatado pelo primeiro veterano de confronto que os irmãos entrevistam como um covarde por preservar sua própria vida.




Sobre os fatores físicos do mangá: a arte é primorosa, sóbria e ótima para retratar o ambiente militar da época em questão. O acabamento da edição brasileira é bastante satisfatório, apesar de achar o preço um tanto salgado (se em comparação com Planetes, publicado pela Panini, que tem um acabamento ainda melhor e um preço menor).

Enfim, Zero Eterno é uma adaptação de livro, mas é muito interessante em si e convidativa a todos que apreciam um enredo mais sóbrio e/ou o tema Guerra. Fica a sincera recomendação aos interessados em ler esta publicação.

Por hoje era isso. Até a próxima!

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Cancelamento: Bouken-Ni Ano 4

Olá a todos.
 
É com certa melancolia que hoje venho anunciar o primeiro cancelamento de projeto em vários anos (ok, já passamos por vários hiatos, mas isso é diferente).
 
Trata-se do projeto intitulado "Bouken-Ni Ano 4". A quarta temporada das tiras e histórias dos otakus brasileiros que nasceram neste blog e depois ganharam casa própria. Há algum tempo até havíamos feito um anúncio bem feliz de que esta nova temporada estava próxima de ter início. Porém, as coisas não saíram como planejado e, tendo em vista a altura do ano em que já nos encontramos e a quantidade de outros projetos que estão tendo prioridade no momento, decidimos tomar essa decisão.
 
Não haverá material novo do Bouken-Ni em 2015.
 
Isso não é (ainda) o fim definitivo da série. Dependendo das circunstâncias o "Ano 5" poderá acontecer, mas, por enquanto, tudo não passa de possibilidades remotas.
 
Para não deixar essa "despedida temporária" tão triste, vou deixar uma ponta do material que foi produzido para vocês. Trata-se do banner que seria usado no blog nesta nova temporada. Dá até certo orgulho ver os personagens de 2012 com uma aparência bem melhor do que no começo de tudo.
 
 
 
Enfim, por hoje é isso. Amanhã voltamos com papos mais animados.

quinta-feira, 12 de março de 2015

Comentários sobre Ageha volume 1

Olá a todos!

Sabe quando você vai ler uma obra nova, sem saber nada a respeito, e ela acaba de impressionando muito e em vários sentidos? É algo meio incomum de acontecer, ainda mais quando seu gosto não é exatamente aquele que os editores mais privilegiam, mas não é impossível. Aconteceu comigo quando comprei Ageha, lançado recentemente pela Editora JBC.

Como tem sido meu costume peguei o primeiro volume apenas pela simpatia preliminar que o título e capa me causaram, sem fazer qualquer pesquisa à respeito. Apesar de ser uma estratégia arriscada e nem sempre bem sucedida, com Ageha - Efeito Borboleta foi um tiro super acertado.

Comentários sobre Ageha volume 1




Mangá lançado originalmente em 2012, com autoria de Rikudou Koushi, autor também de Excel Saga, esta obra de dois volumes conta a história de Motoki Tateha e sua saga surreal para concretizar seu amor com sua namorada, Ageha. No caminho deles está um Destino trágico e talvez irreversível, mas que Motoki irá tentar vencer de algum modo que ele sequer consegue imaginar.

Se eu soubesse antes que esse mangá era do autor de Excel Saga teria ido para a leitura com muito mais empolgação! Não que talvez isso me fizesse gostar mais, porém teria sido menos surpreendente encontrar tantas tiradas nonsense e até meio "perigosas" no meio do enredo.

A princípio a trama confunde o leitor, assim como confunde o personagem principal, Motoki, que nada entende daquelas situações aparentemente desconexas e sem sentido pelas quais está passando. É somente com o andar dessa loucura que tanto o personagem, como o leitor, vão enfim compreendendo a situação trágica (que ao mesmo tempo consegue ser engraçada) na qual ele se encontra.

O maior destaque, pessoalmente, são os personagens dessa história.

Motoki é um herói em busca da realização do seu amor, com todas as limitações possíveis, mas que não chega perto do esteriótipo de "bunda mole" de uma comédia romântica (aliás é feita uma brincadeira ironizando isto em um dos capítulos presentes nessa primeira metade da história).

Ageha Nami é a mocinha que acaba sendo alvo principal da tragédia toda envolvendo Motoki. Engana-se porém quem pensar que ela é do tipo frágil e inativa. Pelo contrário, Ageha esbanja atitude (sem cair nos clichês de tsunderismo) e personalidade.

Kagero Himeshima é um dos grandes choques da trama. Apresentado primeiro como um rapaz que nutre sentimentos por Motoki (ou Modoki, como ele costuma chamar) é revelado depois como na verdade sendo uma garota, fisicamente, mas que se veste e age a maior parte do tempo como um garoto

Aqui vale uma nota mais profunda. Apesar de tratar-se de uma comédia com tons de tragédia, achei bastante surpreendente uma personagem como a Kagero. Com o passar do primeiro volume fica bastante claro que ela tem sua identidade de gênero como masculina. Ela se porta e se vê como um homem. E isso nada influencia sua sexualidade, que é bissexual.

Na prática Kagero é uma personagem que consegue, por suas peculiaridades, ser uma alavanca para uma diversidade enorme de situações cômicas e perigosas (para Motoki). Ainda assim vale aqui a nota do quão interessante é ter um personagem com esse tipo de característica no cast de suporte da obra.

Enfim, ainda temos mais uma personagem para falar e, bom, é uma personagem extremamente marcante também.

Hera Satan. O que dizer dessa personagem? Uma garota musculosa, imensa e nada delicada fisicamente, mas que tem os sentimentos frágeis e instáveis como a mais formosa das moças. Hera nutre um amor incondicional por Kagerou.

Fora isso temos ainda a pessoal que aparentemente comanda toda a loucura que é o universo dessa história: . Uma mulher bastante sensual que parece se divertir com a agonia eterna que Motoki, chamado por ela de "anomalia", está vivendo.

Sobre o enredo, não dá pra falar muita coisa sem dar ainda mais spoilers massivos. Amor, um tanto de fanservice, personagens nada clichês, mortes, repetição e alteração da Realidade, além de deuses/demônios que comandam tudo pelos bastidores.

Misterioso, não? Realmente é um enigma a princípio, que só fica mais trágico e nonsense quando é melhor compreendido pelo leitor.

Enfim, tomando apenas esse primeiro volume de Ageha não tem como não recomendar a leitura a todos. Não deve demorar muito para que tenhamos o segundo volume, e conclusão, dessa saga de amor e nonsense.  Provavelmente voltarei aqui ao blog para comentar minhas impressões finais da obra, quando a publicação brasileira estiver finalizada.

Será que Motoki e Ageha irão vencer as amarras de um destino trágico? E Kagero e Hera? Qual delas irá conseguir concretizar seus anseios e quem será que vai ter que sair morto dessa intrincada teia amorosa como consequência? Só com a continuação é que vamos saber disso (nada de ler antecipadamente online ein!)

Até breve! o/

Como estruturar um enredo ficcional

Publicado originalmente no blog Creative 1000% em 13/10/2014

Olá a todos! Hoje iremos tratar de uma parte fundamental para a criação de qualquer obra literária ficcional: a estruturação do enredo. Vamos abordar este assunto de maneira prática, através de recomendações e passos práticos que podem ser experimentados e livremente adaptados à rotina de trabalho de qualquer autor ou aspirante a autor de ficção.

É bom deixar claro de antemão que a forma de desenvolver a estrutura de um enredo apresentada neste texto é apenas uma sugestão baseada na metodologia aplicada pela autora do mesmo no seu trabalho literário. Cada um encontra sua própria fórmula de trabalho, porém é sempre saudável conhecer novos métodos. Isso pode criar possibilidade de enriquecer a forma de trabalho pessoal de quem observa sem preconceito a metodologia distinta.

Dito isto, vamos para a parte prática.

Como estruturar um enredo ficcional



Para que este texto se desenvolva de maneira mais direta o possível, vamos adotar etapas enumeradas e desenvolver um exemplo genérico, visando a construção de um enredo para um conto. Isso com a ajuda de um aplicativo para Android chamado "Plot Generator". Posteriormente podemos postar o conto terminado, para que fique mais interessante e seja possível ver a execução da metodologia que se apresenta. 

Para quem tiver preconceito com a utilização de "geradores", acreditando que nenhum enredo que soe natural possa sair do mesmo gostaria de fazer o convite para que leia um dos últimos trabalhos que publiquei no grupo NUPO. Um conto de ficção-científica intitulado "Extinção" que foi baseado totalmente em um plot gerado por este programa. Confiram neste LINK.

Etapas e exemplos, vamos lá.

1 - Crie seu plot central

O plot central é um pequeno conjunto de frases que vão dizer o que se trata o enredo no cerne. Pode haver um ou outro detalhe mais específico da trama neste plot, o importante é poder descrever sua trama como um todo.

Exemplo: utilizando o Plot Generator, cheguei a este enredo (traduzido livremente do inglês):

Plot: Você está viajando em uma nave-colônia em direção a um novo lar. Um novo computador quântico desenvolvido é capaz de prever um evento catastrófico no futuro próximo. A previsão acidentalmente se torna pública, levando toda a sociedade ao pânico. Seu personagem estava se programando para um dia voltar à Terra. Uma guerra de larga-escala começa na Terra.

Comentário: caramba ein, esse enredo é tão abrangente que poderia resultar em um livro com facilidade. Mas vamos nos deter ao contexto de conto.

Comentário 2: Percebe como o primeiro ponto do plot dá a possibilidade de narrar-se em primeira pessoa? Este é um ponto a ser pensado posteriormente, na fase de execução da obra.


1.5 - Anote os objetivos centrais

Os objetivos de uma trama não estão expressos no plot, isso é algo que precisa ficar bem claro ao autor. Enquanto o plot demonstra o início ou até algum detalhe importante do meio de um enredo, os objetivos centrais devem tratar daquilo que será o guia para o andamento do começo ao desfecho da história.

Este é um bom momento para decidir qual será o final do enredo, para que assim se possa ter um guia para elaborar os objetivos de forma coerente.

Exemplo: Vamos tentar abstrair pelo menos dois objetivos para guiar este enredo sem criar a necessidade de uma grande extensão de narrativa:

Objetivo 1: O desejo do protagonista em retornar para a Terra em conflito com a realidade contrária a este anseio.

Objetivo 2: Demonstrar o caos que se pode gerar em uma sociedade graças a informação de um possível desastre futuro. Será essa previsão verdadeira?

Comentário: Perceba que apesar de serem guias, ainda não existe um desfecho? Vamos então criar um desfecho direto, mesmo que genérico para saber para onde devemos levar o enredo:

Desfecho: O protagonista não consegue voltar para a Terra.


2 - Divida em etapas principais

Etapas genéricas, guiando o início para o final. Não é preciso nenhum tipo de detalhamento, apenas tente pensar quais partes devem existir para que a trama saia do ponto inicial e chegue com naturalidade ao seu desfecho.

Exemplo: Agora é a hora de transformar essas diversas idéias que o plot criou em algo ordenado e sequencial

Etapas:

a) Apresentar o protagonista e sua realidade na nave-colônia
b) A previsão catastrófica que se espalha como um boato
c) As notícias da guerra na Terra
d) Caos
e) A chegada a um novo Planeta


3 - Detalhe cada etapa em acontecimentos-chave

Agora abrimos cada uma das etapas em acontecimentos menores.

Exemplo

a) Apresentar o protagonista e sua realidade na nave-colônia
    - O protagonista em seu trabalho como engenheiro de manutenção da colônia
    - A realidade da colônia: sociedade, famílias, modo de vida e valores.
b) A previsão catastrófica que se espalha como um boato
    - Um conselho de cientistas, estarrecido pela previsão do novo computador
   - O relatório com o desastre passa de mão e mão na alta cúpula de cientistas que governam a nave-colônia
    - O vazamento da notícia
c) As notícias da guerra na Terra
    - Protagonista tenta contato com os amigos deixados para trás
    - Chegam notícias de que os conflitos na Terra explodiram em uma guerra de proporções planetárias
d) Caos
    - O pânico se tornando generalizado
    - Os governantes da nave tentam acalmar a população, com pouco efeito
    - Engenheiros são convocados para ajudar a controlar a situação, visto que são poucos os agentes de segurança existentes na nave-colônia
    - Uma verdadeira guerra civil se instaura dentro da nave
    -  Medidas extremas para conter o caos são tomadas
e) A chegada a um novo Planeta
    - Mesmo com a perda de mais da metade da população, a nave-colônia chega a um novo Planeta
    - Apesar das tentativas de contato com a Terra, a nova colônia planetária não mais consegue respostas do Planeta-mãe.

Comentários: Talvez vocês, assim como eu enquanto trabalhava nesta etapa do exemplo, tenham notado que algumas coisas parecem não se encaixar com perfeição no seguimento da trama. Isso é natural e até desejável. Em uma etapa mais à frente da estruturação iremos tratar destes casos.

4 - Se possível, detalhe ainda mais

Esta etapa é fundamental para enredos longos, de noveletas e romances propriamente ditos. Em contos não é possível um detalhamento tão grande, até porque o objeto (o conjunto total do enredo) é muito mais limitado e o espaço para desenvolver o mesmo também. Porém dê bastante atenção para este enredo


5 - A lista de cenas

Aqui é onde irão ser enumeradas todas as cenas. Atenção para o tamanho das descrições de cada cena. É interessante que cada cena seja resumida em uma frase simples ou um par de orações coordenadas. Deixe os detalhes para uma etapa mais à frente e foque-se no conteúdo central e valor de cada cena para a construção do enredo como um todo.

Exemplo: Para criar a lista de cenas apartir de uma lista bem detalhada de acontecimentos é até bastante simples. A grosso modo basta perceber quais linhas devem ser mescladas e fazê-lo e, o restante, transcrever do modo como foram feitas a princípio

Lista de cenas - Conto sci-fi

01 - O protagonista em seu trabalho como engenheiro de manutenção da colônia
02 - A realidade da colônia: sociedade, famílias, modo de vida e valores.
03 - Um conselho de cientistas, estarrecido pela previsão do novo computador & O relatório com o desastre passa de mão e mão na alta cúpula de cientistas que governam a nave-colônia
04 - O vazamento da notícia
05 - Protagonista tenta contato com os amigos deixados para trás & Chegam notícias de que os conflitos na Terra explodiram em uma guerra de proporções planetárias
06 - O pânico se tornando generalizado
07 - Os governantes da nave tentam acalmar a população, com pouco efeito
08 - Engenheiros são convocados para ajudar a controlar a situação, visto que são poucos os agentes de segurança existentes na nave-colônia
09 - Uma verdadeira guerra civil se instaura dentro da nave & Medidas extremas para conter o caos são tomadas
10 - Mesmo com a perda de mais da metade da população, a nave-colônia chega a um novo Planeta
11 - Apesar das tentativas de contato com a Terra, a nova colônia planetária não mais consegue respostas do Planeta-mãe.

Observação: em sublinhado estão cenas que acabaram sendo fundidas nesta etapa.

6 - Analisando a fluidez das cenas de acordo com os objetivos

"Nem tudo precisa ser mostrado" é a máxima que rege esta etapa do desenvolvimento. Este é o primeiro ponto de crítica que se fará a respeito do enredo que está sendo construído. Tudo o que estiver "a mais" deverá ser cortado para que uma nova versão, mais refinada, da lista de cenas surja.

Exemplo: desde que comecei a estruturar essas cenas percebi que essa parte relacionada à Terra não estava combinando com o restante da trama. Acredito que seja melhor retirar essas partes e deixar apenas alguma citação breve através do protagonista. Isso também dizendo respeito ao final do enredo. É preciso dar menos espaço a essa distância da Terra graças à misteriosa guerra e focar-se mais nas angústias e frustrações do protagonista que ao final da história irá perceber que jamais seus anseios serão realizados.


7 - A segunda versão da lista

Depois de analisada e repensada, a lista de cenas está pronta para ser refinada, em algo mais coerente com a proposta inicial.

Atenção: em enredos longos é provável que seja necessário repetir algumas vezes as etapas de análise-corte e construção de novas listas de cenas. O importante é chegar o mais próximo possível do ideal.

Exemplo:

01 - O protagonista em seu trabalho como engenheiro de manutenção da colônia. Citar guerra na Terra  &  A realidade da colônia: sociedade, famílias, modo de vida e valores.
02 - Um conselho de cientistas, estarrecido pela previsão do novo computador & O relatório com o desastre passa de mão e mão na alta cúpula de cientistas que governam a nave-colônia
03 - O vazamento da notícia
04 - O pânico se tornando generalizado
05 - Os governantes da nave tentam acalmar a população, com pouco efeito
06 - Engenheiros são convocados para ajudar a controlar a situação, visto que são poucos os agentes de segurança existentes na nave-colônia
07 - Uma verdadeira guerra civil se instaura dentro da nave & Medidas extremas para conter o caos são tomadas
08 - Mesmo com a perda de mais da metade da população, a nave-colônia chega a um novo Planeta
09 - Protagonista em sua nova rotina trabalhando para o estabelecimento no novo planeta. Suas reflexões sobre a impossibilidade de retornar.

 Comentário: em sublinhado as mudanças relacionadas ao que mencionei que deveria ser excluído, no tópico anterior. Percebam também que ouve outra fusão de cenas.

8 - A "Passagem de Cenas"

A Passagem de Cenas aqui citada é inspirada diretamente no procedimento conhecido como "Passagem de Cenas Expandida" onde cada cena antes enunciada como uma frase curta é desmembrada em alguns parágrafos, contado de forma resumida como irá se dar o desenrolar da cena. É aconselhado que cada cena seja adaptada para pelo menos meia página de escrito.

Em particular também acrescento um cabeçalho com informações da cena em questão como POV (point-of-view), objetivo da cena e, em alguns casos, qual "tom" a mesma deve passar.

Para o exemplo irei destrinchar apenas uma das cenas do conto que estruturamos neste exemplo para a postagem.

Exemplo

01 -  O protagonista em seu trabalho como engenheiro de manutenção da colônia. Citar guerra na Terra  &  A realidade da colônia: sociedade, famílias, modo de vida e valores. 
Objetivo: Apresentar Protagonista e detalhes daquela sociedade
  * Protagonista indo para seu trabalho diário de engenheiro;
  * Protagonista passa por vários setores da nave no caminho. Aqui ele explica sobre a estrutura daquela sociedade;
  * Protagonista encontra com um colega também engenheiro. Ele sabe que o amigo perdeu a família ainda na Terra. Seus pensamentos são levados à Terra e ele cita a situação difícil que o Planeta-mãe estava quando partiram;
   * Protagonista começando a fazer seu trabalho diário de manutenção dos sistemas que mantém a vida de toda a nave-colônia
[Fim da cena]

Agora sim, tudo pronto

Com a Passagem de Cenas, seja a mais tradicional até uma versão simplória e improvisada em mãos é possível declarar que já se tem toda a estrutura de um enredo em mãos.

Uma observação importante é: NADA É ABSOLUTO, ainda mais falando de ficção. É bem provável que nas primeiras vezes em que se for tentar desenvolver uma narrativa apartir de uma estrutura organizada se encontre vários pontos que precisem ser alterados na execução para que o enredo não se perca dos objetivos, ou não dê destaque demais a personagens secundários em desfavor do protagonista. . .  Enfim, toda a sorte de mudanças podem ser necessárias e devem ser feitas durante a execução. Nenhuma estrutura, por mais bem pensada que seja, é um mapa absoluto para o sucesso de uma ficção, mas sim um guia que irá ajudar o autor a não chegar a pontos onde se perguntará "e agora? O que acontece a seguir?".

Mas cadê os personagens?

Sim, você deve ter notado que não foi citado em nenhum momento o trabalho necessário para elaborar e aprofundar os personagens que irão dar vida ao enredo ficcional elaborado.

Essa "falha" foi proposital e o motivo é simples: Personagens são um tópico fundamental e extremamente complexo da ficção, portanto necessitam ser tratados e analisados em sua elaboração em um momento separado. Neste artigo cabe apenas deixar claro que o desenvolvimento da estrutura do enredo deve caminhar praticamente em paralelo com o desenvolvimento dos personagens para que esses dois elementos acabem não se tornando pouco associados, o que criaria uma estranheza enorme tanto na hora de escrever quanto depois, quando tal enredo fosse mostrado a um leitor.

Futuramente iremos tratar aqui no Creative 1000% sobre a parte teorica e prática do desenvolvimento de Personagens, pois este é um ponto fundamental da Ficção.

Finalizando

Gostaria de fechar este artigo apenas relembrando que esta metolodia é fruto de conhecimento empírico, fortemente apoiada sobre estudos de técnicas já consagradas nos meios literários e cinematográficos. Acredito profundamente que o bom de conhecer metodologias de outros artistas seja exatamente para poder refletir e aperfeiçoar suas próprias técnicas. E é com este intuito que apresentei neste texto com a maior clareza possível minha metodologia "padrão" de trabalho. Nem sempre sigo meus próprios métodos, mas esta sistemática é sempre um norte interessante para referenciar-se.


Lilian K. Mazaki

quinta-feira, 5 de março de 2015

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

A megalomania literária

Originalmente publicado no blog Creative 1000% em 19/09/2014

É bem recorrente em fóruns e grupos de aspirantes a escritores espalhados pela internet encontrar jovens autores fazendo o seguinte tipo de comentário: "Tenho XX anos (menos de 25 ou 20) e nunca escrevi nada, mas tenho uma série de Z (acima de 5 ou mesmo 10) livros em mente. Como faço para escrevê-los?". Esse tipo de pensamento é comum em pessoas com pouca experiência prática no ofício literário (literalmente a labuta de escrever) que reflete uma enorme falta de preparo para tal empreendimento e, além disso, é uma janela imensa para fracassos e frustrações.

Mas, afinal, o que tem de errado em querer começar a carreira literária escrevendo uma longa série de ficção?


A "Megalomania Literária"




Primeiro ponto negativo é psicológico. Um potencial autor cria um universo de fantasia maravilhoso, deslumbrante e logo começa a enumerar a quantidade de livros que precisaria para apresentar esse universo de modo completo ao leitor. Imagina-se sendo ovacionado e adorado por seus fãs, participando de noite de autógrafos e, quiça, negociando os direitos para um filme em Hollywood! Porém, em meio a toda essa euforia o aspirante não se dá conta de algo simples, mas fundamental nesse processo: escrever é um trabalho demorado e penoso.

Não que todos os autores, publicados ou não, não possam se permitir esses momentos de devaneio, muito pelo contrário. Mas, encher-se de ansiedade a respeito de uma obra tão grandiosa sem sequer ter começam a tirá-la da mente para um rascunho que seja pode ser uma armadilha.

Uma vez que o autor desperte do seu sonho e se veja diante de um desafio tão gigantesco e urgente (afinal, se ele não começar a escrever AGORA não irá viver o bastante para ver toda a sua fama prosperar) ele provavelmente irá TRAVAR por completo antes de escrever a primeira frase do primeiro esboço de conto sobre seu maravilhoso universo.

O segundo ponto negativo é logístico. Escrever um livro é uma atividade que exige uma quantidade bastante volumosa de subsídios para se tornar realidade:  tempo e esforço podem ser conceitos abstratos, mas são a matéria-prima do trabalho literário e são um custo para o autor. Uma pessoa que diz que quer estrear escrevendo uma série de, por exemplo, 10 livros correlacionados provavelmente não faz ideia da quantidade de tempo e desgaste mental necessários para terminar uma única obra, quem dirá 10 obras com enredos interligados.

Um autor inexperiente, em praticamente todos os casos, não tem técnica o suficiente para lidar com um único enredo, muito menos com diversos enredos entrelaçados.

Um aspirante não tem, em sua maioria, conhecimento do próprio ritmo de trabalho, nem noções de organização pessoal para lidar com a produção de uma obra.

Boa parte dos escritores de primeira viagem não conhece técnicas para otimizar sua rotina de trabalho para uma obra ou, em casos ainda piores, rejeitam essas técnicas por acreditarem que "sistematizar meu trabalho é matar toda a alma da minha obra."

Ou seja: Escritor aspirante (e mesmo boa parte dos escritores já experientes), não se comprometam com uma série imensa como seu caminho principal na carreira literária.



"Mas eu sou uma pessoa criativa, não posso evitar criar universos maravilhosos e gigantescos."




Criar, a nível conceitual, universos de ficção complexos é um exercício apreciado por autores de fantasia e ficção-científica (o chamado Worldbuilding). É uma atividade, até certo ponto, muito prazerosa e proveitosa para a mentalidade do autor. Ter que repensar regras físicas, sociais ou espirituais de uma realidade imaginada pode ser um caminho para compreender como essas questões são construída na nossa própria realidade.

Porém uma coisa é criar conceitos e outra, muito diferente, é escrever uma série de livros. É preciso separar o senso de criação do senso prático como escritor. Os problemas de comprometer-se com uma série são muitos e podem levar a frustrações enormes.


Como lidar com a Megalomania Literária?




Não há como passar uma receita única de como resolver esta questão, mas irei deixar aqui meu toque opinativo, levando em conta as experiências que já tive na produção literária. Em suma:

- Crie um universo do tamanho que for, MAS, pense em um livro de cada vez;

Se seu primeiro livro, com enrendo redondo, fechado em si mesmo, dentro deste seu universo der certo, ou seja, for publicado (por editora, de maneira independente ou mesmo de graça na internet) e conquistar uma base de fãs, mesmo que pequena, AI SIM você começa a trabalhar no seu segundo livro, ou, num toque mais ousado, uma trilogia nova dentro desse seu universo ficcional.

Escrever é um ofício e o autor despende dos seus bens mais preciosos para isto: tempo e raciocínio, então é preciso inteligencia para não jogar estes preciosos recursos no vácuo da inutilidade.

Outro ponto interessante a destacar aqui: Não adianta de nada escrever 14 livros quem ninguém nunca leu. Para que serve você falar de números invejáveis se você tem menos leitores do que obras terminadas?

Mais uma vez é a questão de ser inteligente com sua carreira. O resumo deste artigo é: Seja realista e dê um passo de cada vez.


Lilian K. Mazaki