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Distrair-se é morrer de repente

"Tô só por fevereiro do ano que vem," diz um colega de trabalho referindo-se ao período de suas próximas férias. Essa frase sempre me intriga. Já tive os mais diferentes tipos de reação e talvez a mais enfática tenha sido responder-lhe, assim de reflexo, algo como. . .

"Se a vida passar assim tão rápido logo vamos estar mortos."

Claro que ninguém fica confortável com uma resposta dessa. Falar da morte é um tabu inexplicável. Como aproveitar o tempo que nos resta se não pensarmos no fato de que existe um limite para esse tempo? Preferimos ignorar a morte e viver como se houvessem dias que podem ser simplesmente desperdiçados em favor de algo melhor que virá à frente, como férias de trinta dias onde não faremos nada além de comer, beber e dormir.

A vida só existe enquanto temos memórias específicas dela para relembrar. Quando o momento passa, a prova de um calendário ou de uma dor nas articulações que não existia não é o suficiente para termos certeza de que vivemos realmente aquele momento. São só as lembranças, encadeadas e revividas com carinho que dão prova. São os filmes que recordamos ter visto, as conversas animadas e únicas que tivemos com amigos naquele dia que pareceu tão desinteressante fora aquele momento. É o texto que vemos escrito com tal data. É uma imagem, um rascunho num pedaço de papel, uma fatura de cartão de crédito.

Talvez por isso fotos sejam coisas tão fascinantes. Elas capturam a prova de que um momento existiu. Esse efeito se dilui quando tiramos trezentas selfies que não conseguimos diferenciar, mas talvez o histórico do instagram possa ser algo. . . Talvez, digo, porque não uso minha conta dessa rede e só recentemente comecei a tirar algumas selfies esporádicas.

Estar distraído é morrer de repente. É deixar que o hoje se apague sem deixar marcas visíveis. É transformar meses e anos em um corte difuso de algo que não importa mais.

A questão complexa aqui é que cada pessoa se sente "vivendo" de forma diferente. Para alguém pode ser o momento de conversar com o filho e ver como o tempo constrói sua personalidade.  Talvez seja o momento de ouvir um novo albúm de um artista que até poucas horas nunca ouvira falar. Pode ser também o momento em que se aprendeu um novo Kanji e conseguiu reconhecê-lo em uma frase jogada na sua timeline do Twitter. Pra mim a vida só existe enquanto escrevo. A única prova convincente de que existi são as palavras que já esqueci de como foram digitadas, mas ao mesmo carregam em si os sentimentos e pensamentos que eu tive naquele momento específico.

Como quando escrevi sobre como a distração nos joga de súbito até o momento da morte. Essa nossa amiga inevitável e significadora só precisa de uma desculpa qualquer para se apresentar. É sempre bom tomar cuidado.

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